quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

“Só um Deus nos poderá salvar”


Esta frase não vem de algum Papa mas de Martin Heidegger (1889-1976), um dos mais profundos filósofos alemães do século XX, numa entrevista dada ao semanário Der Spiegel no dia 23 de setembro de 1966 mas somente publicada no dia 31 de maio de 1976, uma semana após a sua morte. Heidegger sempre foi um observador atento dos destinos amedrontadores de nossa civilização tecnológica. Para ele a tecnologia como intervenção na dinâmica natural do mundo para benefício humano, penetrou de tal maneira em nosso modo de ser que se transformou numa segunda natureza.
Hoje em dia não podemos nos imaginar sem o vasto aparato tecnocientífico sobre o qual está assentada nossa civilização. Mas ela é dominada por uma compulsão oportunística que se traduz pela fórmula: se podemos fazer, também nos é permitido fazer sem qualquer outra consideração ética. As armas de destruição em massa surgiram desta atitude. Se existem, por que não usá-las?
Para o filósofo, uma técnica assim sem consciência, é a mais lídima expressão de nosso paradigma e de nossa mentalidade, nascidos nos primórdios da modernidade, no século XVI, cujas raízes, no entanto, se encontram já na clássica metafísica grega. Esta mentalidade se orienta pela exploração, pelo cálculo, pela mecanização e pela eficiência aplicada em todos os âmbitos, mas principalmente em relação para com a natureza. Essa compreensão entrou em nós de tal maneira que reputamos a tecnologia como a panacéia para todos os nossos problemas. Inconscientemente nos definimos contra a natureza que deve ser dominada e explorada. Nós mesmos nos fizemos objeto de ciência, a ser manipulados, nossos órgãos e até nossos genes.
Criou-se um divórcio entre ser humano e natureza que se revela pela crescente degradação ambiental e social. A manutenção e a aceleração deste processo tecnológico, segundo ele, pode nos levar a uma eventual autodestruição. A máquina de morte já está há decênios construída.
Para sair desta situação não são suficientes apelos éticos e religiosos, muito menos a simples boa-vontade. Trata-se de um problema metafísico, quer dizer, de um modo de ver e de pensar a realidade. Colocamo-nos num trem que corre célere sobre dois trilhos e não temos como pará-lo. E ele está indo ao encontro de um abismo lá na frente. Que fazer? Eis a questão.
Se quiséssmos, teríamos em nossa tradição cultural, uma outra mentalidade, nos presocráticos como Heráclito entre outros, que ainda viam a conexão orgânica entre ser humano e natureza, entre o divino e o terreno e alimentavam um sentido de pertença a um Todo maior. O saber não estava a serviço do poder mas da vida e da contemplação do mistério do ser. Ou em toda a reflexão contemporânea sobre o novo paradigma cosmológico-ecológico que vê a unidade e a complexidade do único e grande processo da evolução do qual todos os seres são emergências e interdependentes. Mas esse caminho nos é vedado pelo excesso de tecnociência, de racionalidade calculatória e pelos imensos interesses econômicos das grandes corporações que vivem deste status quo.
Para onde vamos? É neste contexto indagações que Heidegger pronunciou a famosa e profética sentença:”A filosofia não poderá realizar diretamente nenhuma mudança da atual situação do mundo. Isso vale não apenas para a filosofia mas principalmente para toda a atividade de pensamento humano. Somente um Deus nos pode salvar (Nur noch ein Gott kann uns retten). Para nós resta a única possibilidade no campo do pensamento e da poesia que é preparar uma disposição para o aparecimento de Deus ou para a ausência de Deus em tempo de ocaso (Untergrund); pois, nós, em face do Deus ausente, vamos desaparecer”.
O que Heidegger afirma está sendo também gritado por notáveis pensadores, cientistas e ecólogos. Ou mudamos de rumo ou a nossa civilização põe em risco o seu futuro. A nossa atitude é de abertura a um advento de Deus, aquela Energia poderosa e amorosa que sustenta cada ser e o inteiro universo. Ele nos poderá salvar. Essa atitude é bem representada pela gratuidade da poesia e do livre pensar. Como Deus, segundo as Escrituras, é “o soberano amante da vida”(Sabedoria 11,24), esperamos que não permitirá um fim trágico para o ser humano. Este existe para brilhar, conviver e ser feliz.

Leonardo Boff
Veja do autor o livro Proteger a Terra-Cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record, Rio de Janeiro 2010.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Deus Conosco

Mais do que adorar o menino Jesus como divindade dos cristãos, o Natal nos convida à celebração do significado do advento Cristo: Deus conosco 

O mundo ocidental se aproxima cada vez mais da Atenas pagã dos primeiros anos da era chamada cristã (Atos 17.16-34). Multiplicam-se deuses, mas resta um altar ao "Deus Desconhecido". Seria o altar justificado por superstição ou medo de alguma divindade ofendida por lhe faltarem homenagens?

Quem sabe, reverência nostálgica a um deus que acabou empoeirado entre ideias que se foram tornando inúteis. Ou ainda a sensação de que devesse existir um deus ainda desconhecido a vir preencher esse buraco ôntico que carregamos no peito, que Dostoiévski chamava de "vazio do tamanho de Deus".

Os atenienses não podiam abafar esse grito por um deus de verdade. O coração humano sussurra de contínuo uma prece ao "Deus Desconhecido", como a que Friedrich Nietzsche teria feito na juventude: 

"...elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo. A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, Tua voz me pudesse chamar. Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: 'Ao Deus desconhecido'. Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos. Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo. Eu quero Te conhecer, desconhecido." 

São Paulo, apóstolo, visita Atenas e discursa dizendo conhecer o "Deus Desconhecido", que apresenta como o "Deus que fez o mundo... e não habita em santuários feitos por mãos humanas, e está além da imaginação do homem", tanto quanto pode estar um Deus encarnado, morto e ressurreto.

Sendo verdade o que os cristãos celebram no Natal, que Deus veio ao mundo e encarnou em Jesus desde o ventre de uma virgem que concebeu pelo Espírito Santo, temos um paradoxo: a verdade religiosa cristã implica ao mesmo tempo a abolição de qualquer religião, e também o congraçamento entre todas elas. Para ser Deus, há que ser suprarreligioso. Mas, para ser reconhecido, deve se fazer presente em um lócus visível, de revelação.

Por isso se diz que Deus se mostra definitivo em Jesus, o Cristo, resposta ao anseio do coração humano pelo "Deus Desconhecido".

No Natal, Deus é redimido da especulação metafísica dos gregos, e também liberto da covardia dos religiosos que o confinaram aos templos, dogmas, rituais e tabus. O Deus encarnado em Belém se revela nas relações de afeto: "Ninguém jamais viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós", disse são João, apóstolo.

Mais do que adorar o menino Jesus como divindade dos cristãos, o Natal nos convida à celebração do significado do advento Cristo: "Deus conosco", conforme os profetas hebreus, e portanto "Deus sem véu". Deus agora conhecido.

Deus que se manifesta como amor: compaixão, misericórdia, graça, solidariedade, justiça e paz. Deus, alegria dos homens. Deus a convidar todas as famílias da terra, de toda raça, tribo, língua e nação para a festa da comunhão e da fraternidade universal.

ED RENÉ KIVITZ, teólogo, mestre em ciências da religião, é pastor da Igreja Batista de Água Branca, São Paulo. 
Publicado na Folha de São Paulo / Tendências e Debates - 25/12/2011

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Como se coloca o problema de Deus hoje



Hoje o tema de Deus está em alta. Alguns em nome da ciência pretendem negar sua existência como o biólogo Richard Dawkins com seu livro Deus, um delírio (São Paulo 2007). Outros como o Diretor do Projeto Genoma, Francis Collins com o sugestivo título A linguagem de Deus (São Paulo 2007) apresentam as boas razões da fé em sua existência. E há outros no mercado como os de C.Hitchens e S.Harris.
No meu modo de ver, todos estes questionamentos laboram num equívoco epistemológico de base que é o de quererem plantar Deus e a religião no âmbito da razão.
O lugar natural da religião não está na razão, mas na emoção profunda, no sentimento oceânico, naquela esfera onde emergem os valores e as utopias. Bem dizia Blaise Pascal, no começo da modernidade: “é o coração que sente Deus, não a razão” (Pensées frag. 277). Crer em Deus não é pensar Deus, mas sentir Deus a partir da totalidade do ser.
Rubem Alves em seu Enigma da Religião (1975) diz com acerto: “A intenção da religião não é explicar o mundo. Ela nasce, justamente, do protesto contra este mundo descrito e explicado pela ciência. A religião, ao contrário, é a voz de uma consciência que não pode encontrar descanso no mundo tal qual ele é, e que tem como seu projeto transcendê-lo”.
O que transcende este mundo em direção a um maior e melhor é a utopia, a fantasia e o desejo. Estas realidades que foram postas de lado pelo saber científico voltaram a ganhar crédito e foram resgatadas pelo pensamento mais radical inclusive de cunho marxista como em Ernst Bloch e Lucien Goldman. O que subjaz a este processo é a consciência de que pertence também ao real o potencial, o virtual, aquilo que ainda não é, mas pode ser. Por isso, a utopia não se opõe à realidade. É expressão de sua dimensão potencial latente.
A religião e a fé em Deus vivem desse ideal e desta utopia. Por isso, onde há religião há sempre esperança, projeção de futuro, promessa de salvação e de vida sem fim. Elas são inalcançáveis pela simples razão técnico-científica que é uma razão encurtada porque se limita aos dados sempre limitados. Quando se restringe apenas a essa modalidade, se transforma numa razão míope como se nota em Dawkins. Se o real inclui o potencial, então com mais razão o ser humano, cheio de ilimitadas potencialidades. Ele, na verdade, é um ser utópico. Nunca está pronto, mas sempre em gênese, construindo sua existência a partir de seus ideais, utopias e sonhos. Em nome deles mostrou o melhor de si mesmo.
É deste transfundo que podemos recolocar o problema de Deus de forma sensata. A palavra-chave é abertura. O ser humano mostra três aberturas fundamentais: ao mundo transformando-o, ao outro se comunicando, ao Todo, captando seu caráter infinito, quer dizer, sem limites.
Sua condition humaine o faz sentir-se portador de um desejo infinito e de utopias últimas. Seu drama reside no fato de que não encontra no mundo real nenhum objeto que lhe seja adequado. Quer o infinito e só encontra finitos. Surge então uma angústia que nenhum psicanalista pode curar. É daqui que emerge o tema Deus. Deus é o nome, entre tantos, que damos para o obscuro objeto de nosso desejo, aquele sempre maior que está para além de qualquer horizonte.
Este caminho pode, quem sabe, nos levar à experiência do cor inquietum de Santo Agostinho: “meu coração inquieto não descansará enquanto não repousar em ti”.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Missões na "cracolândia" projeto Cristolândia

Veja a entrevista do Missionário Humberto Machado, da Junta de Missões Nacionais da Igreja Batista na Rede Vida sobre a Cracolândia 




quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Pr Ariovaldo Ramos recebe o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos


Me desculpem a qualidade do áudio, mas quero deixar registrada, a importância desse prêmio e a relevância da participação de parte do segmento evangélico nas questões sociais desse país.


"...só teremos uma nação, quando o direito de todos os seres humanos, for garantido..." 
Ariovaldo Ramos (time 1,23-1,37)